Acredito que toda e qualquer decisão que tomamos na vida
envolve muito mais do que simplesmente decidir, tem que ter determinação.
Muitos podem até pensar que decidir parar de fumar é algo simples, mas para mim
não foi.
Fumar é um hábito que tenho há 20 anos, e largar um hábito
que se tornou um vício não é fácil não! Longe de ser! Só quem fuma sabe.
Envolve não só o hábito, mas uma dependência química terrível do organismo, que
é onde o calo aperta! Mas depois entro nesse assunto.
E o que afinal me levou a decidir parar? Bom, foram tantos
os motivos.
O primeiro motivo foi quando me notei refém desse tubinho
branquelo fedorento (É, eu gostei de chamar ele assim). Quantas coisas já
deixei de fazer por pensar que não poderia fumar, como por exemplo, ir na casa
de alguém que não fuma e detesta cigarro ou até mesmo sair com alguém. Quantas
vezes no meu dia a dia eu paro tudo que estou fazendo para atender o meu
organismo que clama por nicotina. Quantos ônibus já deixei passar para terminar
de queimar meu dinheiro. Isso veio à tona de repente e começou a incomodar, mas
deixei ali, incomodando mesmo, já que por diversas vezes eu já tinha me
incomodado com isso e continuava fumando, então achei que seria só mais uma
fase. E eu fui vivendo essa fase.
Eu sempre brinquei que um dos benefícios do cigarro, era o
fato dele ter o poder de socializar. Fiz muitas amizades enquanto fumava. Fumante
se aglomera em um canto específico, e estando ali curtindo o momento do tubinho
branquelo fedorento sempre surge um comentário ou outro, um isqueiro emprestado
ou até mesmo um cigarro doado e dali o papo flui e não para mais, a cada cigarro
um assunto. Ou a cada assunto um cigarro? Não que isso seja uma regra, mas é
bem comum de acontecer. Os fumantes se identificam, se entrosam facilmente!
Aqui em São Paulo, depois da lei Antifumo acho que isso acabou por incentivar
amizades fumantes, já que temos que ficar muitas vezes em áreas específicas e
isolados da sociedade, e diante disso acabamos por fazer a nossa sociedade. Bom, algum benefício esse fedorento tinha que
trazer né? Até porque novas amizades, ou apenas um papo legal sempre cai bem.
Até que um dia, uma dessas minhas amizades de cigarro
anunciou orgulhosa que tinha largado o cigarro. Opa! Peraí! Ela parou de fumar! Foi esse o alerta que ficou em
minha mente. Estranho? Talvez. Cheguei a brincar com ela nas redes sociais algo
do tipo: ‘Feliz por você, mas triste pois nos falaremos menos...rs’. E ela
parou mesmo, firme e forte. E eu fiquei tão feliz por ela, de verdade! Mas sempre
que a encontrava me vinha novamente na cabeça o alerta: “Ela parou, está bem, está viva! Você é capaz? ” Olha, de
verdade, ela não me desafiou em nenhum momento, ela simplesmente parou e
anunciou feliz. O que é justo, muito justo! Mas realmente não sei explicar esse
alerta e nem o motivo, mas sem ela saber me senti desafiada a parar e voltei a
olhar para aquele incomodo de ser refém desse tubinho branquelo e fedorento.
Recentemente aprendi a sentir e viver o que sinto.
Complicado isso? Vou tentar explicar isso de forma simples, se tá incomodando
deixa incomodar, e vamos tentar entender o porquê disso estar incomodando? Mais
ou menos isso. E lá fui eu né? Atrás de perguntas, atrás de respostas e atrás
de todos os incômodos que o fedorento me proporcionava.
Os incômodos: ele fede, eu fedo (é estranho esse verbo né?) ,
e por eu feder (estranho de novo) acho que incomodo a todos que estão a minha
volta (e devo incomodar mesmo), é caro, muito caro, me priva de algumas coisas
que eu gostaria de fazer como correr, estou me matando aos poucos, ao contrário
do que achava há 20 anos atrás não é bonito fumar, estraga meus dentes, acaba
com meu folego, acaba com meu paladar, me deixa fedida (sim, de novo!), já
perdi chances com caras sensacionais por ser fumante (essa parte é triste...rs)
e vou parar por aqui pra não ficar chato demais e já são suficientes.
Achadas as perguntas e respostas os incômodos se
concretizaram, e comecei a conviver com eles martelando em minha cabeça com o único
propósito, o de acentuar ainda mais o fato de eu ser refém de um tubinho branquelo e fedorento. Como
pode? Justo eu ser refém? Passei a ver isso como um absurdo. Eu, refém? Ah vá!
Não! Tá, quem nunca foi refém de algo ou alguém na vida que atire a primeira
pedra, mas me incomoda o fato de ser refém de uma coisinha fedorenta que com
uma pisada ou um simples jato de água passa a ser inútil. Como nunca notei isso
antes! Me diz? E assim decidi parar.
Pronto! Decidido!
Acha que eu saí gritando aos quatros ventos a minha decisão?
Claro...que não! Jamais!
Depois de decidido, uma outra conhecida minha fumante
anuncia que também parou. Mas gente! Como assim? O mundo vai parar de fumar e
eu vou continuar aqui me matando a cada cigarro sozinha? Procurei por ela e
perguntei como estava se sentindo, se estava tomando remédio, o que ela fez e
qual foi a mágica. Ela me narrou brevemente a sua jornada. Difícil, claro! Minha
decisão permanecia dentro de mim, ainda oculta e silenciosa. Acrescentei tudo o
que ouvi dela e acrescentei naquele caldeirão de ideias, pensamentos e incômodos
fedorentos. Mexi tudo com muito amor e carinho com uma pitadinha de amor
próprio, que no fundo era e é o que mais estava me motiva nessa decisão.
E porque não gritei aos quatro ventos? Porque decidir já não
foi fácil, e sem determinação a decisão perde o valor, e pra isso precisei
analisar alguns fatos e variáveis de uma dependência química. Infelizmente é o
meu caso!
Até a próxima...



