terça-feira, 4 de julho de 2017

Decidir...

Acredito que toda e qualquer decisão que tomamos na vida envolve muito mais do que simplesmente decidir, tem que ter determinação. Muitos podem até pensar que decidir parar de fumar é algo simples, mas para mim não foi.

Fumar é um hábito que tenho há 20 anos, e largar um hábito que se tornou um vício não é fácil não! Longe de ser! Só quem fuma sabe. Envolve não só o hábito, mas uma dependência química terrível do organismo, que é onde o calo aperta! Mas depois entro nesse assunto.

E o que afinal me levou a decidir parar? Bom, foram tantos os motivos.

O primeiro motivo foi quando me notei refém desse tubinho branquelo fedorento (É, eu gostei de chamar ele assim). Quantas coisas já deixei de fazer por pensar que não poderia fumar, como por exemplo, ir na casa de alguém que não fuma e detesta cigarro ou até mesmo sair com alguém. Quantas vezes no meu dia a dia eu paro tudo que estou fazendo para atender o meu organismo que clama por nicotina. Quantos ônibus já deixei passar para terminar de queimar meu dinheiro. Isso veio à tona de repente e começou a incomodar, mas deixei ali, incomodando mesmo, já que por diversas vezes eu já tinha me incomodado com isso e continuava fumando, então achei que seria só mais uma fase. E eu fui vivendo essa fase.

Eu sempre brinquei que um dos benefícios do cigarro, era o fato dele ter o poder de socializar. Fiz muitas amizades enquanto fumava. Fumante se aglomera em um canto específico, e estando ali curtindo o momento do tubinho branquelo fedorento sempre surge um comentário ou outro, um isqueiro emprestado ou até mesmo um cigarro doado e dali o papo flui e não para mais, a cada cigarro um assunto. Ou a cada assunto um cigarro? Não que isso seja uma regra, mas é bem comum de acontecer. Os fumantes se identificam, se entrosam facilmente! Aqui em São Paulo, depois da lei Antifumo acho que isso acabou por incentivar amizades fumantes, já que temos que ficar muitas vezes em áreas específicas e isolados da sociedade, e diante disso acabamos por fazer a nossa sociedade. Bom, algum benefício esse fedorento tinha que trazer né? Até porque novas amizades, ou apenas um papo legal sempre cai bem.

Até que um dia, uma dessas minhas amizades de cigarro anunciou orgulhosa que tinha largado o cigarro. Opa! Peraí! Ela parou de fumar! Foi esse o alerta que ficou em minha mente. Estranho? Talvez. Cheguei a brincar com ela nas redes sociais algo do tipo: ‘Feliz por você, mas triste pois nos falaremos menos...rs’. E ela parou mesmo, firme e forte. E eu fiquei tão feliz por ela, de verdade! Mas sempre que a encontrava me vinha novamente na cabeça o alerta: “Ela parou, está bem, está viva! Você é capaz? ” Olha, de verdade, ela não me desafiou em nenhum momento, ela simplesmente parou e anunciou feliz. O que é justo, muito justo! Mas realmente não sei explicar esse alerta e nem o motivo, mas sem ela saber me senti desafiada a parar e voltei a olhar para aquele incomodo de ser refém desse tubinho branquelo e fedorento.

Recentemente aprendi a sentir e viver o que sinto. Complicado isso? Vou tentar explicar isso de forma simples, se tá incomodando deixa incomodar, e vamos tentar entender o porquê disso estar incomodando? Mais ou menos isso. E lá fui eu né? Atrás de perguntas, atrás de respostas e atrás de todos os incômodos que o fedorento me proporcionava.



Os incômodos: ele fede, eu fedo (é estranho esse verbo né?) , e por eu feder (estranho de novo) acho que incomodo a todos que estão a minha volta (e devo incomodar mesmo), é caro, muito caro, me priva de algumas coisas que eu gostaria de fazer como correr, estou me matando aos poucos, ao contrário do que achava há 20 anos atrás não é bonito fumar, estraga meus dentes, acaba com meu folego, acaba com meu paladar, me deixa fedida (sim, de novo!), já perdi chances com caras sensacionais por ser fumante (essa parte é triste...rs) e vou parar por aqui pra não ficar chato demais e já são suficientes.

Achadas as perguntas e respostas os incômodos se concretizaram, e comecei a conviver com eles martelando em minha cabeça com o único propósito, o de acentuar ainda mais o fato de eu ser refém de um tubinho branquelo e fedorento. Como pode? Justo eu ser refém? Passei a ver isso como um absurdo. Eu, refém? Ah vá! Não! Tá, quem nunca foi refém de algo ou alguém na vida que atire a primeira pedra, mas me incomoda o fato de ser refém de uma coisinha fedorenta que com uma pisada ou um simples jato de água passa a ser inútil. Como nunca notei isso antes! Me diz? E assim decidi parar. Pronto! Decidido!

Acha que eu saí gritando aos quatros ventos a minha decisão? Claro...que não! Jamais!

Depois de decidido, uma outra conhecida minha fumante anuncia que também parou. Mas gente! Como assim? O mundo vai parar de fumar e eu vou continuar aqui me matando a cada cigarro sozinha? Procurei por ela e perguntei como estava se sentindo, se estava tomando remédio, o que ela fez e qual foi a mágica. Ela me narrou brevemente a sua jornada. Difícil, claro! Minha decisão permanecia dentro de mim, ainda oculta e silenciosa. Acrescentei tudo o que ouvi dela e acrescentei naquele caldeirão de ideias, pensamentos e incômodos fedorentos. Mexi tudo com muito amor e carinho com uma pitadinha de amor próprio, que no fundo era e é o que mais estava me motiva nessa decisão.



E porque não gritei aos quatro ventos? Porque decidir já não foi fácil, e sem determinação a decisão perde o valor, e pra isso precisei analisar alguns fatos e variáveis de uma dependência química. Infelizmente é o meu caso!


Até a próxima...


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